© Adalcinda Camarão

Membro da APL  Cadeira n° 17


 
 Há muito que aqui no meu peito
 Murmuram saudades azuis do teu céu
 Respingos de ausência me acordam
 Luando telhados que a chuva cantou
 O que é que tens feito
 Que estás tão faceira
 Mais jovem que os jovens irmãos que deixei
 Mais sábia que toda a ciência da terra
 Mais terra, mais dona do amor que te dei
 
 Onde anda meu povo, meu rio, meu peixe
 Meu sol, minha rêde, meu tamba-tajá
 A sesta o sossego da tarde descalça
 O sono suado do amor que se dá
 E o orvalho invisível na flôr se embrulhando
 Com medo das asas do galo cantando
 Um novo dia vai anunciando
 Cantando e varando silêncios de lar
 
 Me abraça apertado, que eu venho chegando
 Sem sol e sem lua, sem rima e sem mar
 Coberta de neve, lavada no pranto
 Dos ventos que engolem cidades no ar
 Procuro o meu barco de vela azulada
 Que foi de panada sumindo sem dó
 Procuro a lembrança da infância na grama
 Dos campos tranquilos do meu Marajó
 
 Belém minha terra, minha casa, meu chão
 Meu sol de janeiro a janeiro a suar
 Me beija, me abraça que quero matar
 A doída saudade que quer me acabar
 Sem círio da virgem, sem cheiro cheiroso
 Sem a "chuva das duas " que não pode faltar
 Cochilo saudades na noite abanando
 Teu leque de estrelas, Belém do Pará!

 

Autoria: Adalcinda Camarão

(Direitos autorais reservados a autora)

 

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