Alberto Cohen

Às vezes,

da janela me derramo

pela madrugada afora,

misturado com sereno,

quase parceiro da lua,

quase cunhado de estrelas,

quase irmão de vaga-lumes,

e vôo por entre a relva,

corro por cima do mar,

até a rosa vermelha

que espera, morta de sede,

a hora em que vou chegar

com meu cantil de quimeras,

montado no lusco-fusco,

soprado pelo horizonte,

vice-rei e vagabundo

de um reino fora da lei,

trajando, fidalgamente,

as roupas que arrebanhei

nos varais de estender roupas

dos quintais onde passei,

vento vestido de gente

que venho, urgente, orvalhar

aquela rosa vermelha,

última rosa vermelha

de tantas rosas vermelhas

que colhi sem semear.

Autor: Alberto Cohen

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