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©
Acyr Castro
Membro da Academia Paraense de Letras
Cadeira 26
O verdadeiro é o que já se decifrou. O ter eu sobrevivido à
chuva. A cidade que sou sem o vinho, o pão, o queijo. Feito sino a
querer reconvocar o Sol.

Dói é na lua o teres ido, rastro de mar na noite que, num
sopro, s’esvaiu. Sou o reverso do fluir do tempo. Sem ti como recriar a fonte?

Eras o natal de onde desembarquei para o infindável das
sombras. Vinha de tuas mãos o som dos pássaros. Hoje mal me limitam as
fronteiras do vazio e do inútil.

Busco reviver a infância, a adolescência, já que é ali
(agora) o teu lugar; casa grande em que nasci, cresci, vivi. A memória, não mais
ágil, não me consente. E a tua figura, que sei em mim de cor, me cobre os olhos;
não mais sonhos e sim pesadelos, pecados por (des)ventura cometidos.

Penso em ti como s’escrevesse uma canção. Verdade que o Livro
ensina a que olhemos, no campo, os lírios. Mas que lírios, em que lugar posso
reouvir o livro, que é do campo?

Neuza Cecília Araújo Paiva de Castro. A certeza d’estares
comigo é que m’incitava à gentileza de dizer bom dia às madrugadas. Pior que a
perda, é a ausência.

Estas irrisórias ternuras parecem uma ironia. Doem nos
nervos, na pele, no sangue ____ mas acariciam a alma. Perdoa este teu filho
condenado às palavras e à poesia.

Que as bestas feras dominem a terra. O céu és tu, minha
pátria, minha bússola, norte do meu sul. Os poetas, quando os deuses o permitem,
é que fundam o permanente.

Me foste dada como um reino, um feudo, e contudo eras a
rainha. Nesta noite sedenta me sinto fechado às águas. E, amargamente, lamento
não me teres ensinado a nadar.

Não chovia quando te levaram. A chuva percorria era o meu
corpo mas por dentro. Somente pude sentar no chão, abraçando às lágrimas e
tentar sumir principalmente de mim.

Estranhamente parecido comigo, resisto entre semelhanças e
contradições. Talvez por isso é que sussurro quando escrevo. Sem ter idéia de
como recompor o dia.

Será o medo de que nos encaminha ao que somos? Será a
insegurança fruto do que parece o inexplicável? A verdade (se isso existe) é
que já nem sei o que diga nem o que faça.

Autor: Acyr Castro
Direitos autorais reservados ao autor

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